quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

RESTAURANTE CAMILIANO - A HISTÓRIA DO "REIMÃO"






Com a devida vénia ao seu autor, vou publicar a notícia inserta no "Jornal de Notícias" de 05 de Abril de 2009, pelo simples fato de ter sido o edifício onde nasci e vivi com os meus progenitores até me consorciar no ano de 1985.

* A tradição popular, às vezes, é muito mais rica e engenhosa do que a própria realidade.

* O "Reimão" foi o restaurante de maior fama no Porto dos finais do século XIX. Ficava na Avenida Rodrigues de Freitas, na esquina com a Rua Barão de São Cosme (na freguesia do Bonfim). Estava instalado numa casa térrea com um amplo quintal e ramada debaixo da qual havia mesas de ardósia onde se serviam os petiscos da casa. Havia anexos e um enorme barracão coberto para quem não quisesse comer ao ar livre. O ambiente era agradável, sobretudo no Verão e a qualidade da comida era muito boa. Não havia ementa. Nem o restaurante confecionava pratos especiais. Pedia-se o que se queria e tudo era preparado na hora. Camilo (Castelo Branco) que frequentou este restaurante apreciava a pescada cozida com cebolas e azeitonas. A casa térrea onde funcionava o restaurante foi depois demolida e no seu lugar construiu-se um novo edifício onde funcionou o "HOTEL DO REIMÃO" e um novo restaurante que não teve a fama gastronómica do seu antecessor.

* Todos sabemos que os franceses, no termo de cada uma das três invasões que fizeram a Portugal, tiveram de fugir apressadamente.

* No que à segunda invasão diz respeito, que foi aquela que mais dramaticamente atingiu a nossa cidade (Porto), a pressa foi tanta que os franceses deixaram para trás muitas armas, munições e até alguns objetos de ouro e prata, produto do saque que haviam feito.

* Consta até que, quando as tropas anglo-lusas entraram no Porto, o general  Soult se preparava para almoçar no Palácio das Carrancas (hoje Museu Soares dos Reis) onde se encontrava instalado.

* Mas na pressa de abandonar a cidade não chegou a sentar-se à mesa e, ao que parece, foi o general inglês Wellesley, que comandava as tropas libertadoras, que acabou por comer a refeição.

* Além das bagagens, os franceses também deixaram abandonados no Porto cerca de sete mil militares internados em vários hospitais da cidade. Uma boa parte deles acabaria por ficar por cá e por se adaptar aos nossos costumes. Esteve neste caso um soldado, padeiro de profissão, conhecido por "o Maneta", por ter perdido um braço na guerra e de seu nome Reymont ou Raimon que, aportuguesado, deu Reimão, a quem é atribuído o nome dado a um sítio do Porto e a invenção do nosso tão conhecido e apreciado "molete", aquele saboroso pão feito de farinha de trigo.

* Mas terá sido assim?

* Vejamos os fatos: a ainda denominada Avenida Rodrigues de Freitas era, primitivamente o antigo caminho para Campanhã, que ficava para lá "da Gafaria dos Lázaros".

* Aí, por meados do século XV este velho caminho ladeava um campo chamado do Vale Formoso que a Câmara do Porto, por aquela altura, emprazou a Pedro Anes de Santa Cruz e a um filho deste, Gonçalo Reimão que o transformaram numa bela quinta que tomou o nome daquele último proprietário, ou seja, "QUINTA DO REIMÃO".

* Com a urbanização desta propriedade, ocorrida no sécdulo XVII, o antigo caminho transformou-se em artéria e foi-lhe dado o nome de Rua de Reimão, em alusão à quinta que ficava mesmo ali ao lado.

* Moral da história: não foi, portanto, o francês, que só aperece no século XIX, a dar o nome ao sítio.

* Mas é verdade que o antigo soldado de Napoleão Bonaparte se instalou nas imediações da atual Avenida Rodrigues de Freitas onde montou uma padaria  e um restaurante que tomou o seu nome.

* A tradição diz que era nessa padaria que se faziam os moletes.

*  A palavra molete, segundo os mais conceituados dicionaristas, significa "pão de trigo pequeno e mole".

* Mas terá sido esta espécie de pão uma invenção do francês?

* Parece que não.

* Manuel Parente de Novais, monge beneditino, que, em 1690, escreveu a "Anacrisis Historial", obra fundamental e de leitura obrigatória para quem quiser estudar a fundo a história do Porto, ao referir a criação, no tempo dos Filipes, da Casa de Relação do Porto, diz que se tratou de uma importante decisão e que com a criação daquele novo tribunal, quem mais beneficiou foi a cidade e o seu comércio porque, segundo o cronista, muita gente das terras do interior passou a vir à cidade nomeadamente para tratar dos casos que andavam em tribunal (litigios) e que essa afluência de povo beneficiou sobretudo o comércio, as estalagens e as casas onde se comia que se esmeravam, acrescenta Parente Novais, "por apresentar os seus melhores produtos como seja as carnes tenras, não só daqui como as que vêm de fora; o fresco e saborosíssimo pescado; as lindas e apetitosas frutas e o nosso tão apreciado pão, não apenas o que se fabrica na cidade, mas também o que vem de Valongo, da Maia, de Arnelas, de Avintes e de outras paragens, muito bem confecionado, branquíssimo e leve, tanto no género da regueifa como no do molete..."

* Ora aí está: o pão molete, pelos vistos, já existia no século XVII, pelo menos é referida a sua existência no ano de 1690.

* Como apereceu afinal a história do Reimão e do molete?

* Ao que parece alguém, que terá vivido no tempo das invasões francesas, contou a história do soldado Reymont ou Raimon mas nada sabia do texto de Parente Novais nem da existência do referido Gonçalo Reimão e associou o nome do sítio ao do militar.

* E neste caso, como em muitos outros, fico-me como Garrett quando disse, "...eu tenho mais fé no livro da tradição popular que em todos os livros dos cronistas arqueólogos e seus comentadores, quantos há..."

* E às vezes, de fato, a lenda é muito mais rica do que a realidade. Fiquemos com ela.



- Escrito segundo as novas regras do Acordo Ortográfico, por "texasselvagem" em Gondomar.     

1 comentário:

Damião Vieira disse...

Muito bom os meus parabéns, voltando ao local onde nasceu o amigo António Joaquim transforma-se em historiador da nossa orgulhosa cidade do Porto.
Pena não vir tantas vez aqui ao sitio, pura falta de tempo.
Um Abraço