quarta-feira, 22 de junho de 2011

DE EXPUGNATIONE LYSBONENSI!

* (Para melhor enquadramento deste texto, deverão recuar à mensagem sobre Pedro (II) Pitões, antigo bispo da cidade do Porto).
* DE EXPUGNATIONE LYSBONENSI" (em português "da captura de Lisboa") é o nome pelo qual é conhecida uma missiva (carta) em latim escrita por um cruzado que participou do cerco e conquista de Lisboa, no ano de 1147, durante a Segunda Cruzada. A tomada de Lisboa aos mouros foi realizada por uma força conjunta de cruzados oriundos do norte da Europa e portugueses sob comando do rei Dom Afonso Henriques.  A carta descreve com riqueza de detalhes as negociações políticas entre o rei e os cruzados estrangeiros, assimo como as ações militares que levaram à conquista de Lisboa, sendo a principal fonte histórica da conquista da cidade.
* A carta começa com uma fórnula abreviada de saudação: "Osb. de Baldr. R. salutem". As ambiguidades do latim medieval  fazem com que seja difícil saber quem foi o autor e que é o destinatário. Tradicionalmente a carta é atribuida a "Osb. de Baldr" e é dirigida a "R"; porém, também é possível que tenha sido escrita por "R" e dirigida a "Osb." Este "Osb." é Osberno (ou Osberto) de Bawdsey (Suffolk). "R." é identificado por alguns como um presbítero inglês chamado Raul.
* Seja quem fôr o autor, o importante é que era um cruzado de formação religiosa (un clérigo ou presbítero) oriundo da Inglaterra ou da Normandia, e que foi testemunha ocular dos acontecimentos da tomada de Lisboa aos mouros no ano de 1147. A qualidade do latim empregado por ele e as caraterísticas do texto indicam que era um homem culto.
* Na carta, o autor descreve a conquista desde as fases preliminares até ao período imediatamente posterior à tomada da cidade. Os cruzados, oriundos principalmente da Inglaterra, Gales, Normandia, Condado da Flandres, norte da França e Renânia (Alemanha), a caminho da Terra Santa, aportam na cidade do Porto, no norte de Portugal, em Junho  de 1147. Estes são recebidos pelo bispo do Porto, Pedro Pitões, enviado do rei Dom Afonso Henriques, que tenta convencê-los em ajudar os portugueses na conquista de Lisboa. 
* O próprio rei português encontra-se com os cruzados nos arredores de Lisboa e faz um discurso para convencê-los a participar na conquista da cidade. Também o condestável inglês, Harvey de Glanville, faz outro discurso e termina por convencer as tropas. O autor da carta reproduz todos esses discursos, ainda que seja impossível saber com que grau de exatidão. As palavras do bispo e do rei apelam tanto ao espírito da cruzada contra os inimigos muçulmanos (a Reconquista era considerada parte da Cruzadas) quanto à promessa de saque (pilhagens) da rica cidade de Lisboa. No acordo final o rei também se compromete a que os cruzados que assim desejassem se pudessem estabelecer em terras da região de Lisboa, onde estariam isentos de impostos. O arcebispo de de Braga, Dom João Peculiar, dirige um discurso aos lisboetas tentando convencê-los a que se rendam sem luta, mas estes recusam. Este último discurso é muito interessante por explicar claramente a justificação moral da Reconquista, ou seja, que os mouros haviam tomado injustamente as terras cristãs durante a invasão muçulmana da Peninsula Ibérica no século VIII.
* O longo cerco começa em Julho de 1147. O autor descreve em detalhe vários momentos de tensão ocorridos nesse período entre os cruzados, causados especialmente pela rivalidade entre os anglo-normandos por um lado e os flamengos e alemães por outro. De uma maneira geral, o autor anglo-normando descreve de forma favorável o comportamento dos seus compatriotas e denigra a dos flamengos e alemães. A relação com as tropas portuguesas também chega a ter vários momentos de grande tensão. 
* "De expugnation Lyxbonensi" também reproduz cartas dos mouros, traduzidas do árabe, intercetadas pelos sitiadores. Numa delas, enviada pelo rei mouro  de Évora e destinada aos moradores de Lisboa, o rei eborense recusa-se a ajudá-los na luta contra os cristãos, com a desculpa de não quebrar um acordo de paz que havia feito com Dom Afonso Henriques.
* Depois de muito esforço, os sitiadores conseguem derrubar parte dos muros da cidade e constroem uma máquina de cerco - uma torre dotada de ponte - que debilita enormemente as defesas da cidade, levando finalmente os lisboetas a renderem-se aos cristãos. O acordo de rendição com os mouros é negociado por Fernão Cativo (Fernão Gomes, 1110-1170), por parte do rei, e Harvey de Glanville, um dos condestávais anglo-normandos. Desacordos sobre o botim geram mais tensão e mesmo violência entre os cristãos, sendo necessárias novas negociações para acordar a divisão das riquezas da cidade.
* Finalmente, no dia 25 de Outubro, a cidade é adentrada pelos cruzados. Apesar de Dom Afonso Henriques ter ordenado que os habitantes fossem bem tratados, o autor do texto informa que as tropas flamengas e alemãs massacraram muitos habitantes da cidade sem razão, matando inclusive o bispo moçárabe da Lisboa miçilmana; enquanto que os anglo-normandos comportaram-se com mesura, respeitanto (literalmente) os acordos. Já espoliada dos seus pertences de valor, a população moura é obrigada a abandonar Lisboa.
* Na parte final a carta descreve entre outras coisas a restauração da diocese de Lisboa e a eleição do seu primeiro bispo, o também cruzado Gilberto de Hastings. Também faz referência ao abandono pelos mouros do Castelo de Sintra e do Castelo de Palmela após a conquista de Lisboa.
* O manuscrito latino da carta conserva-se atualmente no "Corpus Christi College" da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Foram já publicadas várias traduções tanto ao português como ao inglês.

Compilado por "texasselvagem", em Gondomar.

NOTAS: Texto escrito segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
                Os parênteses () resultam de buscas efetuadas pelo autor, pelo que só a ele responsabilizam.

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